
Atividade: Sessão Coordenada
“PESTINHA OU ANJINHO”: QUANDO AS DIFICULDADES COMPORTAMENTAIS SÃO CONFUNDIDAS
(TÊM FENÓTIPO DE) COM PSICOPATOLOGIAS - ESTUDO
DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)
SANDRA SACHS HUSEIN
Renata Cristina Gomes
ITCR - Campinas
Gabriel (03 anos e 10 meses), tinha um irmão de 15 anos e uma irmã de 7 meses.
Morava com o pai (35), técnico de informática, e a mãe (39), auxiliar de sala de
aula na mesma escola de Educação Infantil que Gabriel frequentava. Os pais o
trouxeram para psicoterapia por indicação da Orientadora Psicopedagógica (OP),
pois os profissionais da escola relatavam que Gabriel era agressivo (cuspia nos
coleguinhas e nos educadores, não obedecia à professora, empurrava colegas, saía
correndo, cuspia o almoço no chão, jogava o prato) e a coordenação da escola
estava cogitando a possibilidade de expulsar o aluno. Acreditavam que ele
poderia ter algum tipo de psicopatologia que o impedia de se controlar,
solicitando, inclusive, que a psicoterapeuta mediasse uma consulta com
psiquiatra infantil. Segundo a mãe, ao ser contrariado em casa, o filho emitia
comportamentos de birra, porém menos intensos do que os emitidos na escola. A
mãe evitava frustrar o filho e tinha dificuldade em estabelecer, na relação com
ele, regras e limites. Tal padrão da mãe contribuiu para que Gabriel
desenvolvesse limitado repertório para lidar com situações que lhe fossem
aversivas. As contingências de reforçamento (CR) que operavam no ambiente
escolar exigiam do cliente alguma tolerância à frustração. Ocasiões em que
esperava-se que ele dividisse brinquedos, aguardasse sua vez, por exemplo, eram
estímulos antecedentes para as respostas agressivas, que usualmente eram
consequenciadas com atenção extra de professores e colegas e a suspensão da
demanda original (Gabriel era dispensado da atividade, era retirado da sala de
aula ou mesmo da própria escola). As tentativas da professora de consequenciar
as respostas de Gabriel
(falar que ele iria perder o almoço, não cantaria parabéns, não
iria ao parque etc.) tinham fenótipo de punição, mas não função, já que não
reduziam as respostas indesejadas. Durante o processo psicoterapêutico, ficou
acordado que o acesso ao jogo/brincadeira seria contingente ao engajar-se em
atividades propostas pela psicoterapeuta. Consequências punitivas amenas eram
contingentes ao comportamento não desejado (suspensão da atenção dada a Gabriel,
caso ele se recusasse a cooperar). Além disso, os jogos em sessão eram
arranjados de maneira a possibilitar que o cliente identificasse a classe de
comportamentos considerados “teimosos” (Qualquer comportamento verbal da
psicoterapeuta era consequenciado com uma resposta, também verbal, contrária.).
Uma vez identificados, a psicoterapeuta procurava evocar, por meio de dicas e
modelos, respostas mais tolerantes e cooperativas, as quais eram
diferencialmente reforçadas. Em paralelo, a mãe era instrumentada para criar
condições que desenvolvessem tolerância à frustração e comportamento cooperativo
por parte do filho. A equipe da escola também foi orientada. Utilizou-se, entre
outros recursos, um sistema de economia de fichas no qual a professora
consequenciava positivamente comportamentos desejados. Com o objetivo orientar
Gabriel a seguir regras, a psicoterapeuta criava uma regra (colocar o óculos de
sol que o cliente havia trazido, entrar na sala de atendimento) e ele só teria
acesso aos reforçadores caso seguisse a regra. A psicoterapeuta também orientou
Gabriel a emitir comportamento verbal para se expressar, deixando de utilizar
respostas agressivas. Quando aprontava na escola era retirado deste ambiente
pelos pais, a pedido da Coordenadora. A psicoterapeuta orientou para que isto
não ocorresse, que o responsável permanecesse com ele na escola até o final do
período. Algumas mudanças observadas foram: os pais conseguiram ser mais firmes
ao apresentar regras e fazer cumpri-las, eles explicavam o que esperavam de
Gabriel e reforçavam diferencialmente os comportamentos emitidos; Gabriel passou
a se opor menos e cooperar mais em sessão, ocorrendo generalização desses
comportamentos para o ambiente natural (fez, inclusive, novas amizades e
melhorou a frequência às aulas).
Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR); TCR com crianças; agressividade, psicopatologia.