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Volume 23 - 25/11/08

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Jornal - Sinal Verde
Amar se aprende? Como isso acontece?
(pergunta enviada ao Jornal Sinal Verde)

Sim. Quando uma pessoa desconfia dessa afirmação, é porque ela - caso ame - não está consciente de como aprendeu a amar. Aprender a amar torna o amor essencialmente humano. As coisas aprendidas (em particular aquelas que foram muito bem aprendidas) se tornam tão intrínsecas ao ser, que a própria pessoa não concebe que um dia o seu repertório de amar não tivesse sido parte de sua natureza.

O amor é uma mistura de sentimentos. Talvez por isso seja tão difícil defini-lo e apreciar sua gênese em nós mesmos. O amor é uma mistura complexa que não se repete de uma pessoa para a outra. Também por isso, é uma experiência afetiva idiossincrática e única para cada ser humano. No entanto, podemos - somente para tornar o conceito de amor mais compreensível - decompô-lo em três componentes. No primeiro nível, existe o amor erótico, que é peculiar a todos os membros da mesma espécie. Neste nível, com predominância de determinação genética, os seres se assemelham. Num segundo nível, o amor ganha contornos ontogenéticos, ou seja, é constituído a partir da história de desenvolvimento de cada pessoa em particular. Esse nível interage com o primeiro e resulta em padrões absolutamente individuais que não se repetem. É o que faz as pessoas amarem seres diferentes uns dos outros, o que as faz reagirem a peculiaridades do outro de maneira única e com tamanha amplitude, que inclui todos os matizes que compõem quaisquer pontos, de um extremo a outro de um contínuo de variabilidade que constitui cada indivíduo humano. Quaisquer peculiaridades de um ser humano podem despertar o afeto de um alguém. Tal diferenciação e variabilidade são tão maravilhosas que tornam possível todos amarem alguém e a qualquer um ser amado por alguém. Não há possibilidade de exclusão absoluta, exceto em exceções neuróticas. No amor não há preconceito. O preconceito é expresso pela pessoa em relação a quem ela não ama, ou por aquele que é incapaz de amar. O amor afaga arestas; não se deixa ferir por elas. Há, por fim, um terceiro nível de amor - infelizmente, só alcançado por poucos - em que mais importa o bem estar do outro do que o próprio bem. É uma relação na qual eu me sinto bem, não pelo que eu diretamente alcanço, mas pelo bem que aquele que me cerca alcança. E, se possível, devo contribuir ativamente para a realização do outro. Apenas grupos sociais (família, escolas, igrejas etc.) preocupados com o desenvolvimento harmonioso e cooperativo do grupo - em oposição a preocupações individualistas e competitivas -, dispõem condições e proporcionam estratégias e conseqüências para desenvolver em seus membros sensibilidade pelo outro. O amor pleno é composto pela interação equilibrada dos três níveis expostos.

O processo de vir a amar implica numa longa construção de repertórios de comportamentos de fazer por, fazer para e fazer com o outro; envolve amplo repertório de receber; aspira à capacidade de tolerar frustrações; inclui repertórios de saber apreciar o bem estar, o lazer, a convivência saudável; exige o conhecimento do próprio corpo e o exercício espontâneo do sensorial em todos os órgãos do seu corpo e o respeito pelo exercício sensorial do outro; supõe saber rir e saber chorar; pede tolerância e paciência; etc. etc.

Não é de estranhar que amar se aprende e não é uma tarefa fácil. É ingênuo supor que saber amar é intrínseco ao ser humano, e pensar assim reduz as relações de amor ao seu nível mais primitivo. A capacidade para amar e para desenvolver relações de amor, essa sim é intrínseca ao humano. Mas ter potencial não é a mesma que desenvolver e atualizar tal potencial. Reconhecer que o repertório de amar - que inclui atos e sentimentos unidos de forma inseparável - é aprendido não empalidece seu valor e profundidade. Tal reconhecimento o eleva ao status de uma extraordinária aquisição humana. Persegui-la até alcançá-la plenamente torna o amor mais humano e alça aqueles que sabem amar ao patamar mais alto de desenvolvimento pessoal. Se puder escolher, se deixe amar por quem aprendeu a amar. Ao mesmo tempo, cuide do desenvolvimento de sua capacidade de amar... para sua realização e a de quem você ama.


Hélio José Guilhardi

Hélio José Guilhardi
CRP: 06/918
Mestre em Psicologia Experimental pela USP
Diretor do ITCR-Campinas

Jornal - Sinal Verde
O que a Análise experimental do comportamento tem a dizer (ou entende) em relação a afirmação de algumas abordagens psicológicas de que: \"é no sofrimento que as pessoas evoluem\". Já que a AEC parte do pressuposto que todos os eventos aversivos devem ser removidos do ambiente do sujeito?
(pergunta enviada ao Jornal Sinal Verde pelo estudante de psicologia, Diego Foppa - Balneário Camburiu - SC

O fato de você receber, em suas aulas de Análise Experimental do Comportamento, a noção de que os eventos aversivos devem ser removidos, não significa que essa seja uma possibilidade real em nossa sociedade. Pode-se desejar que isso venha a ocorrer. Mas, ao menos, é renovador ouvir uma opinião como essa a respeito da abordagem comportamental. Usualmente, somos acusados (equivocadamente) de posições mais drásticas e menos edificantes.

A eliminação de todos os aversivos - uma posição ingênua porque utópica (utopia significa em nenhum lugar) - também é equivocada. Fosse esse o objetivo de qualquer área do conhecimento, tal área estaria fatalmente condenada ao fracasso. É diferente, porém, lutar para que os eventos aversivos sejam evitados e amenizados dentro dos limites possíveis.

Ainda que todos os homens conhecessem e aplicassem os princípios básicos que regem o comportamento humano, estaríamos, mesmo assim, à mercê de eventos aversivos advindos da natureza: num exemplo extremo, temos os desastres naturais (terremotos, furacões); no outro extremo, situações às quais estamos cotidianamente submetidos (calor, frio, doenças, perda de entes queridos etc.). Aliás, é muito mais comum termos nossos comportamentos mantidos e desenvolvidos por reforçamento negativo - ou seja, pela retirada ou eliminação de algo aversivo - do que por reforçamento positivo. Assim, são freqüentes as ocasiões em que nossas ações visam a que nos livremos de situações aversivas. Embora B. F. Skinner, sempre que seus escritos se referem ao tema, tenha comentado e lamentado tal condição, em nenhum momento vislumbrou a possibilidade de alterá-la na dimensão mencionada em sua pergunta. Vale a pena destacar dos textos de Skinner pelo menos quatro ponto básicos:

  • a. o incessante alerta contra o uso arbitrário de conseqüências aversivas;
  • b. a explícita condenação do uso das contingências aversivas a serviço do controlador, em detrimento dos direitos do oprimido, perpetuando uma hierarquia de poder opressor-subjugado inaceitável;
  • c. a identificação dos efeitos colaterais indesejáveis que decorrem do uso do controle coercitivo, basicamente supressão de repertório operante e exacerbação de emoções e sentimentos ruins;
  • d. a constatação de que o controle aversivo não instala comportamentos desejados e suprime apenas temporariamente os indesejados (a menos que sejam usados procedimentos coercitivos extremos).

Quando emitimos comportamentos, somos governados por regras (leis, costumes, padrões familiares etc.) ou controlados pelas contingências (neste caso, consciente ou inconscientemente, nos comportamos de acordo com as conseqüências anteriormente produzidas por nossos comportamentos).

Tanto as regras como as conseqüências naturais de nossos comportamentos vão, desde nossa mais tenra idade, impondo restrições quando agimos impulsivamente, quando estamos privados de algo a que não temos acesso, quando aprendemos que não poderemos fazer tudo o que gostaríamos... Qual a conseqüência disso? Por um lado, vamos desenvolvendo tolerância diante de tais frustrações, o que nos habilita a atuação mais adequada na vida adulta e desenvolve o sentimento a que se deu o nome de responsabilidade. Por outro lado, ao tentar/testar novas formas de ação diante de frustrações, impedimentos, contrariedades, numa tentativa de modificar tais condições aversivas, temos a possibilidade de ampliar nosso repertório de comportamentos, variar nossas respostas diante de diferentes situações, apresentando o que é chamado de comportamento criativo.

Dessa forma, de acordo com as considerações acima, é possível concordar em que "é no sofrimento que as pessoas evoluem"; mas também sob controle das conseqüências reforçadoras as pessoas evoluem. O que vale enfatizar é que as conseqüências extremas - aversivas e reforçadoras -são danosas. A melhor condição é a de viver sob contingências de reforçamento amenas.

Vale ressaltar ainda que o que a AEC ensina não é a impossível missão de "eliminar todos os eventos aversivos". A contribuição da AEC está no fato de testar, estudar e descrever, de maneira que possam ser utilizadas em larga escala e em vários contextos, pequenas modificações na forma de conseqüenciar as respostas, sem utilizar eventos aversivos, para que, além de fortalecer e manter comportamentos adaptativos, as pessoas assim conseqüenciadas possam relatar sentimentos de prazer e satisfação.


Noreen Campbell Aguirre

Noreen Campbell Aguirre
CRP: 06/74855
Especialista em Terapia por Contingências de Reforçamento - ITCR Campinas
Diretora do ITCR-Campinas

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Abertas as inscrições para a Turma 2009 do Curso de Especialização em Psicologia Clínica: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR)

Informações:www.terapiaporcontingencias.com.br

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PARA PENSAR

Esse é o nome da nova seção do site ITCR - Terapia por Contingencias de Reforçamento.Clique aqui para maiores informações

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"Às vezes me perguntam: Você pensa a seu respeito da mesma forma que pensa a respeito dos organismos que estuda?. A resposta é sim. Até onde eu sei, meu comportamento em que qualquer momento tem sidonada mais do que o produto da minha herança genética, da minha história pessoal e do contexto atual."

(Skinner, 1983, A Matter of Consequences, p.400)

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Encontros para Pais de Crianças em Idade Escolar

Informações no site: www.terapiaporcontingencias.com.br

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